João Gomes
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IRÃO- UM CONFLITO PARA DURAR NUMA NATO A ESGOTAR-SE ?


Por: | 08/07/2026


    Enquanto Washington insiste que pretende negociar a paz com o Irão, os acontecimentos parecem seguir em sentido contrário. Cada novo ataque, cada nova retaliação e cada nova demonstração de força afastam a possibilidade de uma solução diplomática e aproximam um conflito de desgaste, potencialmente prolongado.

  Mas talvez a questão mais preocupante não seja apenas o Irão. É a capacidade dos Estados Unidos para sustentarem, em simultâneo, a pressão militar no Médio Oriente, a competição estratégica com a China no Indo-Pacífico e os compromissos assumidos no espaço euro-atlântico.

  As recentes declarações de Trump sobre a Gronelândia, ao reafirmar que aquele território deveria ficar sob controlo norte-americano, volta a colocar em causa um aliado da própria NATO: a Dinamarca. Independentemente da viabilidade ou não dessa pretensão, a mensagem política é evidente. Pela primeira vez em muitos anos, um Presidente norte-americano assume publicamente uma posição que pode ser entendida como uma pressão direta sobre um Estado-membro da Aliança.

  A questão pode parecer secundária perante as guerras em curso, mas dificilmente o será para os países do Norte da Europa ou para os Estados bálticos, cuja segurança assenta precisamente na confiança de que a solidariedade entre aliados é um princípio inquestionável. Se essa confiança começar a ser corroída surgem inevitavelmente dúvidas sobre a coesão interna da NATO.

 Naturalmente, nenhum governo europeu o afirmará publicamente. A unidade continuará a ser apresentada como um objetivo comum. Contudo, a política internacional faz-se também de reservas caladas, de divergências estratégicas e de decisões tomadas nos bastidores.

   Ao mesmo tempo, a Europa enfrenta outro dilema. Uma escalada prolongada com o Irão teria inevitáveis consequências económicas: aumento do preço da energia, perturbações nas cadeias logísticas, pressão sobre a inflação e novos custos com defesa. Num continente cuja economia ainda procura recuperar de sucessivas crises, esse cenário dificilmente poderá ser encarado com tranquilidade.

   Acresce que o Irão não está isolado. Mantém relações estratégicas relevantes com a Rússia e com a China, e conserva canais de cooperação com diversos países asiáticos e do Médio Oriente. Não significa que todos esses Estados interviriam militarmente em seu favor, significa que qualquer confronto prolongado terá inevitavelmente repercussões muito para além das fronteiras iranianas, tornando o equilíbrio geopolítico ainda mais complexo.

  Também alguns parceiros tradicionais de Washington no Golfo procuram hoje uma política externa mais autónoma do que no passado. Países como o Qatar, a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos têm diversificado as suas relações internacionais e evitado um alinhamento automático com qualquer uma das grandes potências. Essa evolução reduz a margem de manobra dos Estados Unidos na região e torna mais difícil construir uma frente política homogénea.

   Perante tudo isto, a Europa parece encontrar-se numa posição particularmente delicada. Não dispõe da autonomia militar necessária para agir sem o apoio norte-americano, mas também não controla as decisões estratégicas de Washington. Corre, assim, o risco de ficar entre duas dinâmicas que não domina: por um lado, as prioridades globais dos Estados Unidos; por outro, as consequências económicas e energéticas de uma escalada que terá de suportar em primeira linha.

    Questiono se uma estratégia baseada em objetivos cada vez mais ambiciosos - seja no Médio Oriente, seja em dossiers como a Gronelândia - contribui para reforçar a liderança norte-americana ou, pelo contrário, aumenta as tensões com aliados e adversários em simultâneo. E afirmo que não. Antes "separa as águas" definitivamente, mesmo com alguns dos dirigentes europeus mais submissos aos Estados Unidos das últimas décadas.

   Talvez seja precisamente aí que reside a maior fragilidade do momento atual. Uma aliança não se mede apenas pelo poder militar dos seus membros, mas pela confiança política que os une. E essa confiança desgasta-se quando os interesses nacionais começam a sobrepor-se, de forma cada vez mais evidente, aos objetivos comuns.

   Se esta tendência continuar, a NATO diminuirá a sua capacidade militar na Europa, e verá enfraquecida a sua coesão estratégica. E uma aliança que perde coesão dificilmente consegue enfrentar, durante muito tempo, conflitos que exigem recursos, consenso político e resistência económica. Talvez, por isso, o maior desafio do Ocidente não seja vencer uma batalha específica, mas evitar que a multiplicação de crises simultâneas acabe por revelar os limites da sua própria unidade.

    Estaremos a assistir a uma cimeira em Ancara que desenvolverá o espartilhamento efetivo da NATO, com alguns discursos que falarão de "grande união e reforço"? É que, entre a retórica do discurso e a realidade no terreno, vão-se formando grossas sombras. E há quem comece a ficar aliviado com isso.





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