
Há muito tempo o futebol deixou de caber dentro das quatro linhas.
A bola continua redonda. O gramado continua verde. Mas o jogo, ah, o jogo… esse passou a ser disputado também nas trincheiras da consciência.
Terminou a partida. O treinador egípcio ergueu uma bandeira da Palestina. Não levantou um troféu. Levantou uma dor. Em resposta, das arquibancadas, surgiram bandeiras de Israel. Em poucos segundos, o estádio deixou de ser estádio. Transformou-se numa pequena ONU sem diplomatas, onde cada pedaço de tecido gritava aquilo que a política internacional insiste em calar.
É curioso.
Os homens conseguem organizar uma Copa do Mundo com precisão cirúrgica, controlar impedimentos por inteligência artificial, medir milímetros com sensores e satélites… mas continuam incapazes de impedir que uma criança morra sob os escombros de uma guerra.
Talvez porque a tecnologia tenha evoluído mais depressa que a ética.
Vivemos uma época estranha. As bandeiras deixaram de representar povos; passaram a representar torcidas. E quando uma bandeira vira torcida, o sofrimento humano vira placar.
“Do meu lado morreram menos.”
Como se a matemática pudesse absolver a tragédia.
O filósofo Albert Camus, que conhecia a guerra e amava o futebol, escreveu que “tudo o que sei sobre moral aprendi nos campos de futebol”. Talvez porque ali se aprende que existe adversário, não inimigo.
O adversário merece respeito.
O inimigo merece destruição.
Quando confundimos uma coisa com a outra, a civilização começa a desmoronar.
Hannah Arendt advertia que a maior ameaça não era a maldade extraordinária, mas a banalização dela. O horror se torna rotina quando deixamos de enxergar rostos e passamos a enxergar apenas símbolos.
E símbolos não sangram.
Crianças, sim.
A ironia mais cruel é que quase ninguém naquele estádio poderia resolver o conflito do Oriente Médio. Mas todos conseguiam ampliá-lo por alguns segundos.
É mais fácil levantar uma bandeira do que levantar uma pergunta.
Quem lucra com essa guerra?
Quem vende as armas?
Quem transforma cadáveres em discursos patrióticos?
Quem negocia a paz apenas quando ela rende dividendos?
Enquanto discutimos qual bandeira merece ser aplaudida, o mercado continua vendendo mísseis para ambos os lados. A guerra, afinal, também tem acionistas.
A história ensina uma lição que insistimos em esquecer: nacionalismos inflamados costumam começar com bandeiras erguidas e terminar com cruzes fincadas.
Não existe vitória quando mães enterram filhos.
Não existe glória onde hospitais se tornam alvos.
Não existe Deus que sorria diante da celebração da morte.
Talvez o treinador egípcio e os torcedores argentinos tenham levado para o estádio aquilo que carregavam na alma. É humano. O problema começa quando deixamos de reconhecer a humanidade de quem está do outro lado.
Porque a bandeira mais difícil de levantar continua sendo aquela que nunca aparece nas transmissões esportivas.
A bandeira da compaixão.
Ela não vence eleições.
Não viraliza nas redes sociais.
Não rende manchetes.
Mas talvez seja a única capaz de impedir que o próximo campeonato da humanidade continue sendo disputado sobre os escombros da própria civilização.
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