Três Poemas
Hildeberto Barbosa Filho
O meu destino
Sou um pastor de nuvens.
Me fiz em tantos ofícios
à margem de mim mesmo,
alma severa sob o peso
ácido do abismo.
Nada professo.
Não creio.
Também nada espero.
Hábito meu corpo,
não me dói o Apocalipse.
Quando morto estiver,
estarei só, completo.
A memória, fluida e anfíbia,
desaparecerá.
Tornar-se-á a angústia
um nervo podre.
Nessa hora,
que o tempo sacraliza,
verei de perto o meu destino.
O corpo desaba
O poema mais próximo é indizível.
O sol é um glossário
de polos magnéticos.
Lá longe os bichos escavam o espaço,
as rugas de seus flancos luminosos.
Dentro de mim,
o sangue soluça lavando
o ciclo das artérias.
Não existe nada real.
Somente a palavra conduz
o vigor das coisas.
O mundo se dissipa, dilapidado.
O poema mais próximo é a demência.
O esquecimento comanda o gesto,
o corpo desaba.
Tons do vento
Uma bússola
de silentes desígnios
trabalha fora do tempo.
Sua mecânica estelar
funciona em meio às nuvens,
dentro do vento.
Sempre fui só.
O espaço me colhe
em suas lúcidas paralelas.
O vento me conforta a dor,
me leva no esquecimento,
varre das eras corais
e anfíbios.
Salva-me do naufrágio,
da tempestade.
(Do livro inédito:
O ácido aroma de poemas ordinários)
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
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