
Depois de ver a série Narcos, e atentar para doçura da música de abertura em contraste com violência da história, dei-me a refletir sobre o que nos compõe.
É curioso como, às vezes, uma história sobre gente tão distante acaba nos levando ao endereço mais próximo de todos: nós mesmos.
Passamos boa parte da vida tentando acreditar que somos uma peça acabada, quando, na verdade, parecemos um quebra-cabeça montado com peças de caixas diferentes. Há dias em que acordamos generosos. Em outros, basta um contratempo para descobrirmos um desconhecido morando em nossa própria pele.
A mesma pessoa que oferece um abraço sincero pode guardar um ressentimento antigo. A mesma voz que consola é capaz de ferir. A mesma sensibilidade que nos faz chorar diante da dor alheia, vez ou outra, cochila justamente quando alguém mais precisa dela.
Não somos feitos de duas metades. Somos feitos de muitas camadas. Algumas aprendemos a mostrar. Outras escondemos tão bem que acabamos fingindo para nós mesmos que desapareceram.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que a bondade chega pronta, como um móvel entregue em casa. Não chega. Ela exige montagem diária. Exige paciência, revisão, manutenção. Enquanto isso, aquilo que existe de mais estreito dentro de nós cresce sozinho, como erva daninha depois da chuva.
Viver dá tanto trabalho. Não porque o mundo seja complicado, embora seja, mas porque a verdadeira faxina acontece do lado de dentro. E quem já limpou uma casa sabe: o pó insiste em voltar. Não adianta varrer uma vez e declarar vitória.
A cada amanhecer, recomeçamos essa arrumação silenciosa. Escolhemos, quase sempre sem perceber, quais sentimentos ocuparão os cômodos da alma e quais permanecerão do lado de fora. É dessas escolhas discretas, repetidas ao longo da vida, que acabamos construindo a pessoa que nos tornamos.
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