João Gomes
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REFLEXÃO- COMO EVITAR ENTRAR EM PÂNICO DECLARADO


Por: | 10/07/2026


   O Mundo parece ter entrado numa gigantesca ampulheta. Não a ampulheta da nossa vida individual, mas a da própria História. Grão a grão, cada pedrinha de areia representa uma decisão política, um conflito, uma crise económica, uma sanção, uma corrida ao armamento, uma inovação tecnológica ou uma oportunidade perdida para a paz. O problema é que nunca, como hoje, assistimos à queda de cada uma dessas pedrinhas em tempo real.

   A guerra na Ucrânia prolonga-se sem uma solução visível. No Médio Oriente, o conflito alastra de forma imprevisível, envolvendo cada vez mais atores regionais. A NATO acelera o seu processo de rearmamento. A Rússia reforça a sua capacidade militar. A China expande a sua influência económica, tecnológica e estratégica, enquanto os Estados Unidos procuram preservar uma posição dominante num mundo que já não é unipolar.

 Ao mesmo tempo, multiplicam-se as sanções económicas, as guerras comerciais, a disputa pelo controlo das matérias-primas, da energia, dos semicondutores, da inteligência artificial e das rotas marítimas.

  Cada notícia parece mais grave do que a anterior. Cada dia acrescenta mais uma pedrinha à sensação de que o Mundo está prestes a entrar num ponto de não retorno. Mas será mesmo assim? Ou estaremos perante um fenómeno diferente?

   Talvez a verdadeira novidade não seja a existência das crises, mas a velocidade com que elas entram nas nossas casas. Durante séculos, uma guerra podia decorrer durante meses antes de um cidadão comum saber que ela existia. Hoje, um míssil lançado a milhares de quilómetros chega ao telemóvel poucos segundos depois. Uma declaração de um Presidente altera bolsas em segundos. Um vídeo gravado num campo de batalha percorre o planeta antes mesmo de terminar o combate. Vivemos ligados a uma corrente permanente de informação que transforma acontecimentos distantes em emoções imediatas.

    É aqui que nasce aquilo a que chamo o *pânico declarado*. Não é o medo natural perante os perigos. É um estado psicológico permanente em que tudo parece anunciar o pior cenário possível. O cidadão deixa de viver o seu próprio Tempo para viver exclusivamente o Tempo das grandes potências. A sua vida passa a ser medida pelas cimeiras da NATO, pelas decisões de Moscovo, pelas posições da Casa Branca, pelos exercícios militares no Pacífico, pelos movimentos no estreito de Taiwan, pelas ameaças no Médio Oriente no Estreito de Ormuz ou pelas previsões dos mercados financeiros.

  Entretanto, a sua própria ampulheta continua silenciosamente a esvaziar-se. Cada pedrinha continua a cair. E talvez seja essa a maior ironia do nosso tempo. Enquanto observamos, quase hipnotizados, a ampulheta do Mundo, esquecemo-nos de olhar para a nossa.

 Naturalmente, seria irresponsável ignorar o momento histórico que atravessamos. O aumento das despesas militares terá inevitavelmente consequências económicas e sociais. Muitos governos anunciam investimentos sem precedentes em defesa, ao mesmo tempo que enfrentam enormes desafios na saúde, na habitação, na educação e na proteção social. A rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a China continuará provavelmente a influenciar o comércio mundial, a tecnologia e as cadeias de abastecimento. A guerra na Ucrânia continua sem um desfecho previsível e o Médio Oriente permanece uma das regiões mais instáveis do planeta.

Tudo isto são factos. O que não é um facto é concluir que o colapso seja inevitável.

   A História nunca foi uma linha reta. Conheceu guerras mundiais, crises financeiras devastadoras, epidemias, impérios que pareciam eternos e desapareceram, alianças consideradas impossíveis que acabaram por nascer. Também conheceu longos períodos de reconstrução. É precisamente por isso que devemos desconfiar tanto dos discursos que garantem uma paz eterna como daqueles que anunciam uma guerra inevitável.

  Os primeiros ignoram a natureza humana. Os segundos alimentam-se do medo. Talvez a maior responsabilidade do cidadão seja encontrar um difícil equilíbrio. Informar-se sem se deixar manipular. Questionar sem aceitar propaganda. Recusar transformar opiniões em ódios permanentes. Perceber que nenhuma potência é inteiramente virtuosa e que nenhuma narrativa explica, por si só, toda a complexidade do Mundo.

   Porque, enquanto discutimos fronteiras, alianças militares, sanções, mísseis ou corredores estratégicos, a nossa ampulheta continua a fazer exatamente aquilo que sempre fez. Deixar cair as nossas pedrinhas de areia. Uma após outra. Sem interrupções. Sem pausas. Sem regressar atrás. Um dia, inevitavelmente, a última cairá. Nesse momento, pouco importará quantas notícias lemos ou quantas previsões catastróficas acompanhámos. Importará, isso sim, saber se vivemos o nosso Tempo ou apenas sobrevivemos ao medo dos tempos dos outros.

  Evitar entrar em pânico declarado não significa fechar os olhos ao Mundo. Significa impedir que o Mundo nos roube a serenidade necessária para viver o Tempo que ainda nos pertence. Porque enquanto existir uma única pedrinha de areia na metade superior da nossa ampulheta, continuamos a possuir aquilo que nenhum conflito internacional, nenhuma potência e nenhuma crise global conseguem verdadeiramente controlar. O nosso Tempo.

E esse continua a ser, apesar de tudo, a nossa maior liberdade.


PS - As grandes potências disputam o controlo do planeta. O único território que cada um de nós não pode entregar sem lutar é o da própria serenidade. Porque quem vive em pânico já começou a perder muito antes de qualquer guerra chegar à sua porta.



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