Por: | 14/07/2026
Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Gonzaga e a crônica
Não é qualquer um que pode se dizer cronista. Nem mesmo o bom jornalista ou o grande escritor. Nem mesmo aquele poeta de cepa milagrosa. Nem o ensaísta que sabe os ritmos do devaneio e da gratuidade.
A crônica é um reino raro habitado por espécies mágicas e entidades imperceptíveis. Há, nela, um aroma diferenciado, um sabor tão peculiar; uma música incomum por onde ecoam os trinados da vida ordinária, no seu metabolismo entre o grotesco e o sublime.
Digo isso porque acabo de ler uma crônica do vidente Gonzaga Rodrigues, na primeira página do primeiro caderno do vetusto periódico, A União, do dia 05 de julho de 2026, intitulada “A castanhola encaliçada”.
Títulos outros o mestre poderia assinar, para deter o mistério das coisas no organismo das palavras. A esquina silenciosa, o vulto solitário, os ipês iluminados, a lagoa transfigurada, o mendigo falando com Deus, a velha rua da areia mutilada e esquecida etc. Etc.
Como é bom ler a crônica desse exilado de Alagoa Nova dentro do pragmatismo das informações, em meio aos ruídos patogênicos da coisa política ou da esterilidade econômica e social. Crônica é para isso mesmo: fazer o leitor descansar dos idiotas da objetividade e permitir que cada leitor, no enigma de sua fantasia, vá atrás dos segredos do mundo, estupefato e encantado.
Na crônica, o menor se agiganta, o banal ganha foros metafísicos, o detalhe escondido vem à tona para determinar que existe uma eternidade no instante que passa, um fulgor premonitório no ato que poderia se realizar, embora tenha se dissolvido na miragem do tempo, na geografia milimétrica dos fatos que nunca vão acontecer.
Gonzaga Rodrigues, como um Rubem Braga, um Paulo Mendes Campos, um Manuel Bandeira, um Carlos Drummond de Andrade, um Marques Rebelo, um Carlinhos de Oliveira, sabe das manhas e astúcias da crônica enquanto forma literária. Jornalismo e poesia confundidos na ambiguidade do processo criador.
Verdade: a crônica não é mesmo para qualquer um. Tem que se ter estilo. Tem que se ter olhar. Tem que se ter brilho e pensamento. Tem que se ter uma inigualável capacidade de escuta, justamente para que não se percam os ensinamentos que a trivialidade do dia a dia nos oferece através de sua caixinha acústica, silenciosa e vibrante.
Meu domingo começa bem, antes das latinhas de amstel ou dos uísques Cavalo Branco ou Oldpar, se leio o texto do Neguinho a quem devemos tanto. Ler o Neguinho é como experimentar uma carícia amorosa, é como se deixar seduzir, sem opor qualquer resistência, ao peso leve e incandescente da melhor palavra.
Na sua prosa de bruxo bondoso, a vida das coisas mais simples, o fremir de gestos invisíveis, a filigrana intersticial que respira pelos órgãos calados ou pelo ar rarefeito do elemento insustentável, se movimentam dentro da melodia dos vocábulos..
E me fazem tão bem. E me dão lições de ética e de estética. E me navegam na delícia do repouso. E me reafirmam a dignidade do que está vivo e deve permanecer. Daquilo que Jorge Luís Borges, num de seus poemas definitivos, sente que arde e perdura.
(Publicado hoje, 12/07/26, em A União)