Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A ESTUPIDEZ CRÔNICA DA RAZÃO MASCULINA


Por: | 14/07/2026


  Ah, o Brasil. Esse país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, onde a inteligência, por vezes, parece ter tirado férias prolongadas. E não falo da inteligência acadêmica, dos QI’s estratosféricos ou dos diplomas pendurados na parede. Falo da inteligência mais elementar, aquela que nos impede de repetir as mesmas bobagens que a história já se encarregou de desmentir com sangue, suor e lágrimas.

 É de uma indigência intelectual quase poética ouvir, em pleno século XXI, que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as mulheres solteiras”. E a cereja do bolo: “Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não, isso que eu estou dizendo.” O que é isso, meu caro? Um tratado de zoologia política? Uma tese sobre a subespécie feminina, cujo cérebro eleitoral só funciona em modo reboque ou, pior, em modo avaria quando desacompanhado?

  Essa frase, com sua pretensão de análise sociológica, é um monumento à banalidade do mal [1]. Não o mal espetacular dos genocídios, mas o mal cotidiano, insidioso, que se aninha na fala mansa, na estatística de botequim, na certeza inabalável de quem se julga detentor de uma verdade universal. É a mesma lógica que, ao longo dos séculos, tentou confinar a mulher ao lar, à procriação, à sombra do homem. A mesma lógica que, em sua versão mais perversa, justifica a violência, o feminicídio, a anulação da existência feminina.

   Lembro-me de Simone de Beauvoir, a gigante que nos sussurrou aos ouvidos que “não se nasce mulher, torna-se mulher” [2]. Uma frase que, em sua simplicidade, dinamita séculos de determinismo biológico e social. Não somos um dado estatístico pré-fabricado, meu caro. Somos construção, somos escolha, somos a complexidade de um ser que se recusa a ser definido pela presença ou ausência de um anel no dedo ou de um pênis ao lado. A mulher solteira, ao votar “mal” – na sua régua torta, claro – não está falhando. Está exercendo a liberdade de ser, de pensar, de escolher. Está, em suma, sendo.

     E o que dizer das “mulheres casadas que acompanham o voto do marido”? Que romantismo patético! Que visão de uma união onde a individualidade é dissolvida em nome de uma suposta harmonia conjugal. Hannah Arendt, com sua lucidez cortante, nos ensinou sobre a importância do espaço público como arena da pluralidade, onde as diferenças se manifestam e se confrontam [3]. O voto, meu caro, é a expressão máxima dessa pluralidade. Reduzi-lo a um apêndice do desejo masculino é amputar a cidadania, é negar a existência política de metade da população.

   Essa visão de mundo, que insiste em ver a mulher como um ser menor, tutelado, incapaz de discernimento político autônomo, é a mesma que Bertha Lutz e tantas outras enfrentaram para que o voto feminino fosse uma realidade no Brasil [4]. Elas não pediram permissão para pensar ou para escolher. Elas lutaram, se organizaram, desafiaram a ordem estabelecida. E venceram. Assim como Hipátia de Alexandria, que ousou pensar em uma época em que o pensamento era monopólio masculino; como Joana d’Arc, que liderou exércitos quando o lugar da mulher era na cozinha; como Marie Curie, que desvendou os segredos da matéria quando a ciência era um clube de cavalheiros. Elas não “acompanharam” ninguém. Elas abriram caminhos, mudaram o mundo, e o fizeram com a força de sua própria inteligência e coragem.

  O pensamento retrógrado, esse câncer social que se manifesta em frases como a que nos ocupa, não é apenas uma opinião. É um veneno. É a semente da desqualificação que, em seu estágio mais avançado, floresce em violência. É a negação da humanidade do outro, a tentativa de reduzi-lo a um objeto, a uma estatística conveniente. E quando a mulher é reduzida a isso, ela é silenciada, invisibilizada, e, em muitos casos, morta. Não apenas fisicamente, mas em sua essência, em sua capacidade de ser e de agir.

    É preciso ter a coragem de olhar para essa estupidez de frente e chamá-la pelo nome. Não é “opinião”, não é “liberdade de expressão” quando se trata de anular a dignidade do outro. É a velha e surrada misoginia, vestida com a roupagem de uma falsa erudição. E contra ela, só há um antídoto: a inteligência, a história, a filosofia e, acima de tudo, a voz inabalável das mulheres que, apesar de tudo, continuam a mudar o mundo, uma escolha, um voto, uma vida de cada vez.




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