Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

DANINHA


Por: | 14/07/2026



    Dizem por aí que a roupa não faz o monge. Discordo. Faz, sim. Pelo menos até alguém abrir a boca.

Outro dia, olhando fotografias antigas da história recente, encontrei uma da Bund Deutscher Mädel. As moças sorriam, usavam coroas de flores, cantavam para a câmera e pareciam saídas de um comercial de margarina. Se a fotografia tivesse som, provavelmente ouviríamos passarinhos. Se tivesse contexto, ouviríamos botas marchando.

   Foi então que, sem intenção, pensei naquela deputada, que usa uma tiara de flores na cabeça.

Não por causa das flores. Elas são inocentes. Não escolhem a cabeça que enfeitam nem o jardim onde nascem. Pensei porque existe gente que acredita que basta vestir uma estética para que a história esqueça o roteiro.

Nós, humanos, temos uma vocação para transformar símbolos em fantasias. Uns colecionam selos. Outros colecionam referências históricas sem ler as notas de rodapé.

Imagino a cena.

A deputada entra numa floricultura.

"Quero uma coroa de flores."

A florista pergunta:

"Para um casamento?"

"Não."

"Festival de primavera?"

"Também não."

"Então é para quê?"

"Para provocar."

 A florista embrulha as margaridas como se estivesse embrulhando fósforos para um piromaníaco.

No caminho de casa, uma senhora alemã observa a cena e comenta:

"Minha filha, cuidado. Tem fantasia que o espelho acha bonita, mas a História reconhece de longe."

A deputada sorri, ajeita a coroa e responde que tudo não passa de perseguição estética.

  A senhora não insiste. Apenas lembra que a História tem um péssimo senso de humor. Ela costuma repetir piadas que já terminaram em tragédia.

  No dia seguinte de sua exposição nas redes sociais usando a tiara, os debates explodem.

Metade da internet discute botânica.

A outra metade descobre que margaridas também têm ideologia.

Os floristas, coitados, só querem vender girassóis.

E as flores seguem flores, alheias às guerras humanas.

Já quem escolhe brincar com símbolos carregados de sangue não pode reclamar quando a memória coletiva recusa a piada.

  Provocações que rendem manchetes por um dia, podem cobrar um preço por muito mais tempo. A História não condena quem usa flores; condena quem flerta com sombras que deveriam permanecer apenas nos livros, nos museus como advertência. 

   E, quando alguém prefere o espetáculo à responsabilidade, acaba descobrindo que aplauso e reprovação, às vezes, brotam do mesmo jardim. Mas, a sociedade precisa cuidar bem do seu jardim…


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