João Gomes
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REFLEXÃO- COMO A INDÚSTRIA MILITAR EUROPEIA PRODUZ COMPONENTES PARA MORTE


Por: | 16/07/2026


   A guerra na Ucrânia veio revelar uma realidade que, durante muitos anos, permaneceu praticamente invisível para a opinião pública europeia: os sistemas de armas modernos raramente são produzidos por um único país. Por detrás de cada míssil, de cada drone e de cada sistema de ataque existe uma vasta cadeia industrial que atravessa fronteiras, envolve dezenas ou centenas de empresas e mobiliza milhares de trabalhadores especializados.

  O caso do míssil FP-5 "Flamingo" é um exemplo elucidativo desta realidade. Embora seja apresentado como um produto da indústria ucraniana, tudo indica que a sua construção assenta numa cadeia de fornecimento internacional. A montagem final, os testes, parte da estrutura, o desenvolvimento do software e diversos componentes são realizados na Ucrânia. Porém, motores, eletrónica especializada, sensores, processadores e outros equipamentos críticos são, em maior ou menor grau, obtidos através de parceiros industriais externos ou produzidos em cooperação com empresas localizadas noutros países europeus.

 Isto significa que a capacidade ucraniana para produzir este tipo de armamento não depende apenas das suas fábricas de montagem, dos seus engenheiros ou dos seus técnicos. Depende igualmente da continuidade do fornecimento de componentes, tecnologia e apoio industrial proveniente dos países que sustentam o esforço militar de Kiev. Sem essa cadeia internacional de abastecimento, é provável que o ritmo de produção fosse significativamente inferior e que determinados sistemas simplesmente não pudessem ser fabricados nas quantidades atualmente anunciadas.

   Esta realidade coloca uma questão que raramente é discutida de forma aberta. Quando um míssil é lançado e destrói uma instalação, provoca vítimas ou atinge infraestruturas, a responsabilidade material não termina na fábrica onde ocorreu a montagem final. Antes desse momento existiu um longo percurso industrial que envolveu empresas de metalurgia, fabricantes de motores, produtores de semicondutores, empresas de eletrónica, laboratórios de software, transportadoras e inúmeras outras organizações espalhadas por vários países. No fundo, é como se os europeus estejam na guerra, sem saber que estão.

    Naturalmente, os defensores deste modelo argumentam que estas cadeias industriais são essenciais para garantir a capacidade de defesa de um país que "foi invadido e que tem o direito de se proteger". Outros consideram, porém, que essa mesma indústria, ao aumentar continuamente a capacidade de produção de armamento, contribui para prolongar os conflitos e para alimentar uma economia de guerra cada vez mais dependente da procura de novos sistemas militares. No limite pode mesmo levar a que a nação atacada por esse método considere que está a ser atacada por todos que contribuem para a elaboração dessa arma.

   É precisamente aqui que surge uma das grandes contradições do nosso tempo. A Europa apresenta-se como promotora da paz, dos direitos humanos e da diplomacia, mas é simultaneamente um dos principais polos mundiais de desenvolvimento tecnológico para fins militares. Muitos dos avanços científicos produzidos por universidades, centros de investigação e empresas de alta tecnologia acabam integrados em sistemas concebidos para destruir alvos com maior precisão, maior alcance e maior eficácia.

     No caso do FP-5 "Flamingo", a questão não é apenas saber onde o míssil é montado. A verdadeira questão consiste em compreender quantos países, quantas empresas e quantos centros tecnológicos contribuíram, direta ou indiretamente, para que esse míssil pudesse existir. A resposta mostra que, na guerra moderna, a produção de armamento deixou de ser um esforço exclusivamente nacional para se transformar numa vasta rede industrial internacional.

    Talvez seja essa a reflexão mais importante. Quando se observa um míssil em voo, tende-se a imaginar apenas o momento do lançamento. Mas muito antes desse instante existiram milhares de horas de engenharia, investigação, produção e financiamento. E quando essas cadeias industriais atravessam vários países europeus, torna-se inevitável reconhecer que a guerra já não se trava apenas nas trincheiras ou no campo de batalha. Também se trava nas fábricas, nos laboratórios, nas linhas de montagem e nas decisões políticas que autorizam, financiam e mantêm em funcionamento toda essa engrenagem industrial.

E se um dia pagarmos todos pela ganância de quem lucra com a venda de armas?




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